Domingo, 14 de Setembro de 2008

O ENTERRO DO NÃO CONSIGO

Esta história foi contada por Chick Moorman,
e aconteceu numa escola primária
do estado de Michigan, Estados Unidos.

Ele era supervisor e incentivador dos treinos
que ali eram realizados
e um dia viveu uma experiência muito instrutiva,
conforme ele mesmo narrou:
Tomei um lugar vazio no fundo da sala e assisti.
Todos os alunos estavam trabalhando numa tarefa,
preenchendo uma folha de caderno com ideias e pensamentos.
Uma aluna de dez anos, mais próxima de mim,
estava enchendo a folha de "não consigos".
"Não consigo atirar a bola de futebol além da segunda base."
"Não consigo fazer divisões longas com mais de três números."
"Não consigo fazer com que a Debbie goste de mim."
Caminhei pela sala e notei que todos estavam escrevendo
o que não conseguiam fazer.
"Não consigo fazer dez flexões."
"Não consigo comer um biscoito só."
A esta altura, a actividade despertara minha curiosidade,
e decidi verificar com a professora o que estava acontecendo
e percebi que ela também estava
ocupada escrevendo uma lista de "não consigos".
Frustrado em meus esforços em determinar porque os alunos estavam
trabalhando com negativas, em vez de escrever frases positivas,
voltei para o meu lugar e continuei minhas observações.
Os estudantes escreveram por mais dez minutos.
A maioria encheu sua página.
Alguns começaram outra.
Depois de algum tempo os alunos foram instruídos
a dobrar as folhas ao meio
e colocá-las numa caixa de sapatos, vazia,
que estava sobre a mesa da professora.
Quando todos os alunos haviam colocado as folhas na caixa,
Donna acrescentou as suas, fechou a caixa,
colocou-a de baixo do braço
e saiu pela porta do corredor. Os alunos a seguiram.
E eu segui os alunos.
Logo à frente a professora entrou na sala do zelador
e saiu com uma pá.
Depois seguiu para o pátio da escola,
conduzindo os alunos até
ao canto mais distante do recreio.
Ali começaram a cavar.
Iam enterrar os seus "não consigo"!
Quando a escavação terminou,
a caixa de "não consigos" foi depositada no fundo
e rapidamente coberta com terra.
Trinta e uma crianças de dez
e onze anos permaneceram de pé,
em torno da sepultura recém cavada.
Donna então proferiu louvores.

"Amigos, estamos hoje aqui reunidos para honrar
a memória do 'não consigo'.
Enquanto esteve connosco aqui na Terra,
ele tocou as vidas de todos nós,
de alguns mais do que de outros.
Seu nome, infelizmente,
foi mencionado em cada instituição pública -
escolas, autarquias, assembleias legislativas
e até mesmo na casa branca.
Providenciamos um local para o seu descanso final
e uma lápide que contém seu epitáfio.
Ele vive na memória de seus irmãos e irmãs 'eu consigo',
'eu vou' e 'eu vou imediatamente'.
Que 'não consigo' possa descansar em paz
e que todos os presentes
possam retomar as suas vidas e ir em frente na sua ausência. Amém."

Ao escutar as orações entendi que aqueles alunos
jamais esqueceriam a lição.
A actividade era simbólica: uma metáfora da vida.
O "não consigo" estava enterrado para sempre.
Logo após, a sábia professora encaminhou
os alunos de volta à classe e promoveu uma festa.
Como parte da celebração
Donna recortou uma grande lápide de papelão
e escreveu as palavras "não consigo" no topo,
"descanse em paz" no centro, e a data em baixo.
A lápide de papel ficou pendurada na sala de aula de Donna
durante o resto do ano.
Nas raras ocasiões em que um aluno
se esquecia e dizia "não consigo",
Donna simplesmente apontava o cartaz descanse em paz.
O aluno então se lembrava que "não consigo"
estava morto e reformulava a frase.
Eu não era aluno de Donna.
Ela era minha aluna. Ainda assim,
naquele dia aprendi uma lição duradoura com ela.
Agora, anos depois, sempre que ouço a frase "não consigo",
vejo imagens daquele funeral da quarta série. Como os alunos,
eu também me lembro de que "não consigo" está morto.

 

 

publicado por saozinhasimoes às 18:55

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